sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

good times

cheiro de toalha molhada. cheiro de alvejante e de roupas úmidas com a brisa da meia-noite batendo na área de serviço. não ia dormir enquanto minha empregada não fosse também, pra me fazer o cafuné que até hoje não conheci ninguém que faça igual. o cafuné da emília consistia em dar pequenos estalos com as unhas pela minha cabeça toda. a emília era um máximo. cuidava dos detalhes mais românticos. deixava a rotina com gosto de hotel fresquinho. se ela fazia bolo de chocolate ou pudim, era certo que ao lado do meu prato de jantar estaria uma forminha -daquelas de empada- com um mini bolo ou pudim igual ao de tamanho normal que estava na geladeira; preparava uma limonada suiça sensacional, sabia todas as maneiras de se preparar ovos. um dia ela disse pra minha mãe que não era uma simples diarista, ela era "detalhista"... ela me mimava - quando eu chegava cansada do balé, com os pés doloridos, ela enchia a banheira com água quente e espuma e depois fazia massagem nos pés, que não estavam nem mais doloridos, mas que eu fazia questão de dizer que ainda estavam pra aquela vida de mini madame não me deixar. eu já devia estar prevendo que nem sempre ia ser assim. cheiro de roupas úmidas e sufocantemente cheirosas. ela escutava "good times 98". não dá pra esquecer a entonação da voz do radialista "gud taaimes. 98." aí ele traduzia as loves songs pedidas por mulheres apaixonadas, que dedicavam aos seus bofes ou por mulheres despachadas que queriam dar o troco pedindo músicas de dor de cotovelo. o cafa certamente também se ligava no gudtaimes. eu achava aquilo super máximo, super mulher. meia-noite ouvindo traduções simultâneas (baby don´t go / bebê, não se vá) daquelas músicas in english pedidas por aquelas mulheres super adultas. e a emília ainda me dava mil conselhos. eu não lembro direito quais eram mas, eram conselhos sérios. e ela dizia "lari, quando acontecer isso que eu estou te dizendo, você vai lembrar de mim."

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